Última atualização: Janeiro 2026
Se você é médico, dentista, fisioterapeuta, psicólogo ou qualquer outro profissional de saúde com CNPJ no Simples Nacional, provavelmente já se deparou com aquela conta de imposto que parece alta demais. E talvez já tenha ouvido de algum colega: “Eu pago só 6% de imposto”.
A primeira reação é desconfiança, certo? Como assim 6%, se o seu está em 15% ou mais?
A verdade é que isso não é mágica, nem gambiarra contábil. É uma regra oficial do Simples Nacional chamada Fator R — e ela pode fazer uma diferença brutal no quanto você paga de imposto todo mês.
Neste guia, vou te explicar exatamente como essa regra funciona na prática da área de saúde, sem enrolação e sem jargão técnico desnecessário.
Índice
Por que você pode estar pagando mais imposto do que precisava
Deixa eu te contar uma história que acontece direto:
Dra. Ana é psicóloga, atende no consultório e fatura cerca de R$ 15.000 por mês. Quando abriu o CNPJ, o contador configurou tudo no Simples Nacional. Até aí, tudo bem.
Mas tem um detalhe: o pró-labore dela (o “salário” que ela tira formalmente como sócia) é só um salário mínimo. O resto? Ela retira como distribuição de lucros.
Resultado: o sistema do governo coloca a empresa dela no Anexo V, onde os impostos começam em 15,5%. Todo mês, ela paga mais de R$ 2.300 de imposto.
Agora, Dr. Carlos é fisioterapeuta, fatura praticamente igual. Mas o contador dele sugeriu um pró-labore de R$ 3.500 por mês, que fica registrado direitinho na folha de pagamento.
Resultado: a empresa dele cai no Anexo III, onde os impostos começam em 6%. Ele paga cerca de R$ 900 de imposto.
Mesma atividade. Mesmo faturamento. Diferença de R$ 1.400 por mês.
E a única diferença entre os dois? O jeito que cada um organiza a retirada formal do dinheiro.
O que é Fator R (e por que você precisa entender isso)
O Fator R é uma regra que o governo usa para decidir se você vai pagar imposto pelo Anexo III (mais leve) ou pelo Anexo V (mais pesado).
É simples: o governo pega o total que você gastou com folha de pagamento nos últimos 12 meses e divide pelo total que você faturou no mesmo período.
Se esse número der 28% ou mais, você vai para o Anexo III.
Se der menos de 28%, você vai para o Anexo V.
Traduzindo para o dia a dia: se pelo menos 28% do que você fatura volta como pró-labore ou salários formais, você paga menos imposto.
Um exemplo bem direto da sua realidade
Você faturou R$ 180.000 nos últimos 12 meses (uma média de R$ 15 mil/mês).
Para bater os 28%, você precisa ter gasto pelo menos R$ 50.400 com folha de pagamento no mesmo período.
Isso pode ser:
- Seu pró-labore de R$ 4.200/mês (total de R$ 50.400/ano), ou
- Seu pró-labore de R$ 2.500/mês + uma secretária CLT com salário de R$ 1.700/mês, ou
- Qualquer combinação que chegue no valor necessário.
Se você consegue isso, o governo te coloca no Anexo III. Se não, vai pro Anexo V.
O que conta como “folha de pagamento” no Fator R
Aqui é onde muita gente se confunde — e acaba perdendo dinheiro sem perceber.
Entra na conta (ajuda você a bater os 28%):
Seu pró-labore
É o “salário” que você recebe formalmente como sócio. Aparece no seu holerite, tem desconto de INSS, pode ter IR retido. É remuneração formal.
Salários de funcionários
Se você tem secretária, recepcionista, auxiliar — qualquer pessoa contratada CLT —, o salário delas conta.
13º salário e férias
Tanto seus quanto dos funcionários.
FGTS que você deposita
Se tem funcionário CLT, o FGTS de 8% entra na conta.
Encargos previdenciários
A parte do INSS que a empresa paga também entra.
NÃO entra na conta (erro clássico):
Distribuição de lucros
É quando você retira dinheiro da empresa de forma isenta, sem ser como salário. Não tem INSS, não tem IR na fonte. Parece vantagem, mas para o Fator R, não conta absolutamente nada.
Retiradas informais
Pix que você faz da conta da empresa pra sua conta pessoal “só pra usar” não entram.
Pagamentos pra você como “pessoa física prestando serviço”
Alguns profissionais fazem isso achando que vão economizar. Não funciona pro Fator R.
E aqui está o grande erro que derruba muita gente: colocar pró-labore mínimo e tirar todo o resto como lucro.
Parece que você está economizando no INSS, mas na prática está pagando muito mais de imposto no Simples.
Anexo III vs Anexo V: a diferença real no seu bolso
Vamos olhar os números de frente, sem rodeios.
Se você fatura R$ 15.000/mês (R$ 180.000/ano):
No Anexo V (sem Fator R adequado):
- Alíquota efetiva: cerca de 15,5% na faixa inicial
- Imposto mensal: aproximadamente R$ 2.325
- Imposto anual: R$ 27.900
No Anexo III (com Fator R adequado):
- Alíquota efetiva: cerca de 6% na faixa inicial
- Imposto mensal: aproximadamente R$ 900
- Imposto anual: R$ 10.800
Diferença: R$ 17.100 por ano.
É dinheiro suficiente para:
- Investir em um novo equipamento
- Fazer aquele curso de especialização
- Ter uma reserva de emergência melhor
- Simplesmente ter mais tranquilidade financeira
Como profissionais de saúde podem atingir o Fator R
A boa notícia é que, para a maioria dos profissionais de saúde, atingir os 28% é totalmente viável — basta organizar direito.
Cenário 1: Você trabalha sozinho no consultório
Faturamento médio: R$ 12.000/mês (R$ 144.000/ano)
Folha necessária: R$ 40.320/ano (R$ 3.360/mês)
Estratégia:
Defina um pró-labore de R$ 3.500 a R$ 4.000 por mês. Sim, vai ter desconto de INSS (11%) e talvez um pouco de IR. Mas a economia no imposto total compensa muito.
Cenário 2: Você tem uma secretária/recepcionista
Faturamento médio: R$ 18.000/mês (R$ 216.000/ano)
Folha necessária: R$ 60.480/ano (R$ 5.040/mês)
Estratégia:
Pró-labore de R$ 3.500 + salário da secretária de R$ 1.800 (total de R$ 5.300/mês já com encargos). Você bate os 28% tranquilamente.
Cenário 3: Você tem uma clínica pequena com equipe
Faturamento médio: R$ 35.000/mês (R$ 420.000/ano)
Folha necessária: R$ 117.600/ano (R$ 9.800/mês)
Estratégia:
Seu pró-labore + folha dos profissionais contratados facilmente atingem esse valor. Aqui, o Fator R normalmente não é problema.
Os erros que profissionais de saúde cometem (e que derrubam o Fator R)
Erro 1: Pró-labore de um salário mínimo “só pra cumprir tabela”
Conheço médicos que faturam R$ 50 mil/mês e pagam R$ 1.412 de pró-labore. Depois ficam surpresos quando o imposto vem pesado.
O problema: com pró-labore baixo demais, você não atinge os 28%. Simples assim.
Erro 2: Achar que distribuição de lucro “é a mesma coisa”
Lucro é isento de INSS e IR, então parece vantajoso. E realmente é vantajoso — depois que você já garantiu o Fator R.
Mas se você substitui o pró-labore por lucro, derruba o Fator R e paga muito mais no Simples Nacional.
Erro 3: Não revisar a estratégia quando o faturamento cresce
Você começou faturando R$ 8 mil/mês, o pró-labore de R$ 2.500 funcionava bem.
Aí o consultório cresceu, você passou pra R$ 20 mil/mês… mas o pró-labore continuou R$ 2.500.
Resultado: você saiu do Anexo III e nem percebeu.
Erro 4: Confiar que “o sistema faz automaticamente”
O sistema do governo até calcula o Fator R automaticamente. Mas ele só usa os dados que você coloca lá.
Se você não declara o pró-labore direito, se atrasa pagamento, se não lança os encargos… o sistema não vai adivinhar.
Erro 5: Nunca conversar sobre isso com o contador
Muitos profissionais pagam a contabilidade todo mês e acham que “está tudo certo”. Mas se o contador nunca falou com você sobre Fator R, tem algo errado.
Atividades de saúde que podem usar o Fator R
A maioria das atividades na área de saúde se enquadra, mas é importante confirmar seu CNAE específico.
Atividades que normalmente se beneficiam:
- Medicina (clínica geral e especialidades)
- Odontologia
- Fisioterapia
- Psicologia
- Nutrição
- Fonoaudiologia
- Terapia ocupacional
- Enfermagem (consultórios)
- Acupuntura
- Quiropraxia
Atenção: algumas atividades específicas podem ter regras diferentes. Por exemplo, laboratórios de análises clínicas podem ter enquadramento diferente dependendo do CNAE.
Se você não tem certeza sobre o seu caso, vale verificar com seu contador ou no próprio Portal do Simples Nacional.
Como saber se você está no anexo certo hoje
Isso é mais simples do que parece. Você vai precisar acessar o Portal do Simples Nacional (o mesmo lugar onde você gera a guia de pagamento mensal).
Passo a passo rápido:
- Entre no site da Receita Federal com seu certificado digital ou código de acesso
- Acesse o PGDAS-D (é o sistema que calcula seu imposto)
- Olhe a última declaração que você fez
- Procure pelo campo “Anexo”
Se estiver escrito “Anexo V” e você não tem uma folha de pagamento estruturada, provavelmente está pagando mais do que precisava.
Se estiver “Anexo III”, ótimo — mas ainda assim vale conferir se você está mantendo o Fator R adequado.
Quanto custa aumentar o pró-labore (e se vale a pena)
Vamos falar dos números reais, porque não adianta economizar no Simples e quebrar em outro lugar.
Os custos diretos de aumentar o pró-labore:
INSS (11% descontado de você):
Se seu pró-labore é R$ 4.000, você paga R$ 440 de INSS por mês.
IR na fonte (se passar da faixa de isenção):
Até cerca de R$ 2.259, você não paga IR. Acima disso, há retenção progressiva.
Contribuição previdenciária da empresa (CPP):
Já está embutida no Simples, então não é um custo adicional separado.
Vale a pena? Vamos simular:
Você fatura R$ 15.000/mês e aumenta o pró-labore de R$ 1.412 para R$ 4.000.
Custos extras:
- INSS sobre o aumento: cerca de R$ 285/mês
- Possível IR: cerca de R$ 150/mês (varia conforme dependentes)
- Total de custo: ~R$ 435/mês
Economia no Simples:
- Saída do Anexo V para o Anexo III: cerca de R$ 1.425/mês
Saldo líquido positivo: R$ 990/mês ou quase R$ 12.000/ano.
Sim, vale muito a pena.
E se você não conseguir manter 28% todos os meses?
Relaxa. O cálculo não é mês a mês.
O sistema pega os últimos 12 meses de folha e divide pelos últimos 12 meses de faturamento.
Isso significa que:
- Se um mês você faturou mais e o percentual caiu um pouco, não tem problema
- Se você deu férias e não pagou pró-labore em um mês, pode compensar nos outros
- O que importa é a média anual bater os 28%
Então você tem flexibilidade. Não precisa ficar neurótico com cada mês isolado.
Cuidados importantes antes de mexer no pró-labore
Antes de sair ajustando tudo, alguns pontos de atenção:
Revise seu fluxo de caixa
Aumentar o pró-labore significa ter saídas fixas maiores. Certifique-se de que seu faturamento é estável o suficiente.
Se você tem meses muito irregulares, talvez precise de uma estratégia diferente — como contratar um auxiliar CLT part-time ao invés de aumentar muito o pró-labore.
Converse com seu contador antes
Cada situação é única. Seu CNAE específico, histórico de faturamento, se você tem sócio, se tem outros rendimentos — tudo isso influencia.
Um bom contador vai fazer as simulações e te mostrar exatamente quanto você economiza em cada cenário.
Considere o planejamento previdenciário
Aumentar o pró-labore também aumenta sua contribuição para o INSS, o que melhora sua futura aposentadoria.
Para alguns profissionais, isso é um bônus adicional. Para outros que já têm previdência privada, pode ser menos relevante.
Não faça mudanças bruscas sem planejar
Se você está há anos com pró-labore baixo e de repente aumenta muito, pode parecer estranho caso haja alguma fiscalização.
O ideal é fazer ajustes progressivos e sempre com justificativa clara (crescimento do negócio, adequação à realidade do mercado, etc.).
Perguntas que profissionais de saúde sempre fazem
“Mas se eu aumentar o pró-labore, não vou pagar mais INSS?”
Sim, vai. Mas a economia no imposto do Simples compensa muito mais. É basicamente trocar R$ 400 de INSS por R$ 1.500 de economia no DAS.
“E se eu tiver mais de uma empresa?”
O Fator R é calculado por CNPJ. Se você tem dois consultórios, cada um tem seu próprio cálculo.
“Meu sócio não tira pró-labore. Isso afeta?”
Sim, afeta negativamente. Se a empresa tem dois sócios e só um recebe pró-labore, a folha total fica menor — e o Fator R pode não atingir os 28%.
O ideal é que ambos os sócios tenham pró-labore formal, mesmo que um tire menos que o outro.
“Posso pagar o pró-labore só alguns meses do ano?”
Tecnicamente pode, mas não é o ideal. O pró-labore deve ser mensal e regular. Além disso, se você concentrar tudo em poucos meses, pode ter problemas com INSS e gerar confusão na hora da fiscalização.
“Se eu já estou no MEI, posso usar o Fator R?”
Não. O Fator R é exclusivo do Simples Nacional. Se você está no MEI, tem outro tipo de tributação fixa.
Mas atenção: muitos profissionais de saúde ultrapassam o limite do MEI (R$ 81 mil/ano) rapidamente. Quando migrar pro Simples, aí sim o Fator R passa a valer.
O que fazer a partir de agora
Se você leu até aqui e percebeu que pode estar pagando mais imposto do que deveria, respira fundo. A boa notícia é que dá pra ajustar.
Esta semana:
- Descubra em qual anexo você está hoje
- Calcule quanto você está pagando de pró-labore
- Faça uma conta rápida: seu pró-labore atual representa pelo menos 28% do seu faturamento médio?
Este mês:
- Marque uma reunião com seu contador especificamente pra falar sobre Fator R
- Peça pra ele fazer uma simulação: quanto você economizaria ajustando o pró-labore?
- Avalie se sua empresa comporta o ajuste no fluxo de caixa
Nos próximos meses:
- Se fizer sentido, implemente o ajuste de forma gradual
- Acompanhe o resultado nas próximas guias do Simples
- Revise a estratégia trimestralmente, principalmente se seu faturamento mudar
Uma última reflexão
No final das contas, o Fator R não é sobre “dar um jeito de pagar menos imposto”. É sobre organizar sua empresa da forma correta — com pró-labore estruturado, folha declarada, tudo nos conformes.
E como recompensa por fazer as coisas direito, o governo te coloca em uma tabela mais justa.
Tem muito profissional de saúde pagando 15%, 18%, 20% de imposto simplesmente porque nunca parou pra entender como essa regra funciona. Você não precisa ser mais um.
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Glossário rápido:
Simples Nacional: Sistema de tributação simplificado, com uma guia única mensal (DAS).
Fator R: Conta que compara sua folha de pagamento com faturamento. Se der 28% ou mais, você paga menos imposto.
Anexo III: Tabela mais leve do Simples (começa em 6%).
Anexo V: Tabela mais pesada do Simples (começa em 15,5%).
Pró-labore: Seu “salário” como sócio da empresa. Tem INSS e pode ter IR.
Distribuição de lucros: Retirada de dinheiro isenta. Não conta pro Fator R.
CNAE: Código que define sua atividade no governo.
PGDAS-D: Sistema onde você declara faturamento e gera a guia de imposto.
DAS: A guia mensal que você paga (junta todos os impostos do Simples).
RBT12: Quanto você faturou nos últimos 12 meses.
FS12: Quanto você gastou com folha nos últimos 12 meses.





